Linha que dá samba

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Thaiana Gomes – Minha mãe, dona Guilhermina, aprendeu a costurar desde cedo, com uma tia. Aos cinco, seis anos, ela já tinha certa intimidade com as linhas, as agulhas, a tesoura e os pedaços de pano, comprados com dificuldade por meus avós, José e Francisca.  Costurar é o seu ganha-pão até hoje.  Assim como ela, várias pessoas se descobrem costurando pela influência de mães, avós, tias e madrinhas.  E foi assim com dona Laurentina da Conceição, 76 anos. Ela descobriu a magia contida no universo das tramas, alinhavos, linhas e agulhas por meio de sua madrinha.

Dona Laurentina não conheceu os pais, foi criada pelos padrinhos que moravam em Santa Rosa, distrito de Aracruz. Desde os seis anos ajudava na lida da roça: cuidava das galinhas, carregava comida para os empregados do local, alimentava as criações, colocava a mão na enxada e auxiliava nos serviços. No entanto, as mesmas mãos jovens que se desgastavam em um trabalho duro, descobriram o manejo fino do corte e da costura. A senhora conta que observava a madrinha desmanchar roupas velhas e antigas para a fazer outras peças. Isso acontecia em uma salinha da casa, onde ficava apenas a velha máquina de costura preta. E foi neste processo de corta, costura, corta, iniciado pela madrinha, e, depois,  também por dona Laurentina, que ela começou a se interessar pela arte de fazer roupas. A primeira peça produzida foi uma camiseta. Simples. Sem mangas, sem nada de mais. Porém, o serviço na roça não foi deixado de lado.

Aos 14 anos, Laurentina veio para Vitória, sozinha, trabalhar como doméstica em casa de família, permanecendo por anos nessa profissão. Na cidade, ela ficou morando com os irmãos de criação, os filhos dos padrinhos. Aos 25 anos, a senhora já tinha uma filha, fruto de um relacionamento que não durou.  Passado algum tempo, outro amor surgiu em sua vida, e ela teve mais um dois filhos. À época da infância das crianças, um bloco de carnaval desfilava pelas ruas de Itaquari e Boa Vista, bairros de Cariacica: era o Mocidade Unida de Boa Vista. Todas as crianças do bloco desfilavam roupas confeccionadas por dona Laurentina, peças brancas com detalhes em vermelho, relembra a senhora. Isso há mais 30 anos.  E foi assim que começou uma outra história de amor de dona Laurentina, um enlace com a hoje chamada escola de samba Independentes de Boa Vista.

Com o posto de Diretora da Ala das Baianas, dona Laurentina dedica parte do ano à confecção das fantasias da escola do bairro. Costura no ritmo do samba, que a acompanha há tanto tempo.  Outra incumbência da diretora – muito importante, por sinal – é a produção das roupas do dito “coração de qualquer escola de samba”: a bateria. Ela é responsável por deixar impecáveis todos os ritmistas da agremiação, e relembra que as roupas mais lindas foram as do carnaval de 2011. O amor pelo trabalho na Boa Vista é tanto que, além de costurar, dona Laurentina desfila todos os anos na passarela do samba do Espírito Santo, o Sambão do Povo. Amor que também é fiel, pois a senhora costura apenas para a escola.  Amor que passa da mãe para filha, uma vez que Neuza Barcelos, 44 anos, desfila desde os 10 anos, e trabalha nos preparativos para o carnaval juntamente com dona Laurentina, sua mãe.

A senhora de 76 anos, dá vida às fantasias da Escola de Samba Independentes de Boa Vista
A senhora de 76 anos dá vida às fantasias da Escola de Samba Independentes de Boa Vista

“A nossa casa fica cheia de tecidos, coisas brilhantes, adereços. A casa brilha sem querer”, diz dona Laurentina num primeiro sorriso desde o começo da entrevista. E sem perder o fio da meada, emenda “Eu gosto do que eu faço, eu fico entretida. Quanto mais eu faço, mais eu quero fazer. Espero que Deus me dê saúde para que eu possa fazer muitos desfiles (mas eu já estou velha)”, fala rindo um riso largo.

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