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Porquê há cada vez mais pinguins encalhando nas praias do estado

Ilustrações: Vitor Fernandes

Leonardo Ribeiro e Leone Oliveira – Somando cerca de 2 milhões, os pinguins-de-magalhães são aves de médio porte, medindo até 75 centímetro, com peso que pode chegar a 6 quilos. Como todos os tipos de pinguins, eles só habitam no hemisfério sul do planeta. Essa espécie mantém suas colônias na Patagônia, que situa na Argentina e no Chile. E, embora existam 17 espécies de pinguins, só os pinguins-de-magalhães protagonizam um quadro crescente no litoral brasileiro: todos os anos vários deles são encontrados nas praias do estado encalhados, machucados e fragilizados.

Desde 2000 nota-se um aumento de pinguins encalhados na costa brasileira. Foram encontrados em praias do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Em 2006, um zoológico carioca acolheu cerca de 250 pinguins.  Já em 2010, foi registrada a maior incidência no litoral do Brasil. Só no estado foram 500 aves encontradas. As praias do sul são mais suscetíveis aos aparecimentos dos animais, pois são mais frias, assemelham-se melhor ao habitat natural, além de serem regiões próximas à Patagônia. Os pinguins que chegam ao litoral capixaba nadam por mais de 3,5 mil km.

Vários fatores contribuem para o aparecimento dos pinguins no estado. Quando não encontram nas águas do sul, o busco por alimento os distanciam de seu habitat e acabam chegando ao Espírito Santo. O professor de geografia Dorian Miranda Rangel afirma que esse fenômeno é natural. “Quando eles se perdem, são deslocados, entram no fluxo da corrente e chegam aqui”. O professor explica que a única condição que não é natural é a mudança de habitat. “Eles são acostumados a regiões com temperaturas baixas e alimentação farta. Quando chegam aqui, não têm facilidade para encontrar comida e a variação brusca de temperatura afeta sua saúde. As águas são mais quentes, o calor é exaustivo. O ambiente não é o ideal para a sobrevivência deles”. A temperatura de um pinguim é de 41 graus, a das águas do Sudeste chegam a 30.

PinguimA corrente que traz os pinguins para o Sudeste é a das Malvinas, mas os pinguins procuram pelas zonas de ressurgência. “São áreas de encontro de correntes quentes e frias que mexem com o fundo do oceano, aumentando a quantidade de plâncton disponível na água. O plâncton é o alimento das pequenas espécies”, explica o professor. Nessas regiões concentram-se grande quantidade de peixes que servem de alimento para os pinguins, como a anchova e a sardinha. O alimento dos pinguins é também alvo da pesca. Isso também explica o fenômeno: a pesca desordenada provoca escassez de peixes em algumas regiões, o que colabora com a migração.

Depois que chegam às águas do Sudeste, os pinguins encontram um fator que agrava ainda mais a situação. “Nossos rios desembocam no mar conduzindo grandes volumes de lixo e esgoto. Como não encontram comida aqui, muitos pinguins acabam comendo esse lixo, debilitando mais ainda seu estado de saúde.”, Dorian pondera. Plástico está entre uma das maiores ameaças aos pinguins vindas do lixo. Mas o professor reitera que o encalhe dos pinguins é um fenômeno esperado. “Mesmo se não houvesse dejetos no mar, continuariam a aparecer pinguins no litoral. Eles vêm atraídos nas correntes.”.

A baixa quantidade de alimento que impulsiona os pinguins para o litoral brasileiro pode ser causado também por mudanças climáticas, segundo Tainan Oliveira, bióloga e coordenadora do Núcleo de Fauna (Nufau) do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema). Ela concorda com Dorian no que diz respeito à pesca desordenada e acrescenta. “O aquecimento das águas diminui a ocorrência de áreas de ressurgência e, com isso, diminui também o índice de peixes, desestabilizando toda a cadeia alimentar”, ela explica. É um efeito dominó: sem áreas de ressurgência, o plâncton não sobe à superfície e, assim, diminui a quantidade do predador, o que acaba levando à diminuição das anchovas e sardinhas, por exemplo.

Tainan considera a chegada de pequenos grupos de pinguins ao Rio de Janeiro e regiões ao Sul como esperada. Já a grande quantidade de pinguins que chega cada vez mais ao Norte, não. “A baixa quantidade de alimento obriga os pinguins a irem cada vez mais longe de seu habitat, chegando ao Espírito Santo e à Bahia. Em 2008, tivemos relatos de pinguim no Ceará”, relata a bióloga.

Para o acolhimento e tratamento dos pinguins encalhados no estado, o Iema trabalha em parceria com o Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (Ipram). A equipe do Ipram é responsável pela reabilitação dos pinguins. Fundado em 2010, o Ipram atende também aves marinhas voadoras.

Das praias, os pinguins chegam ao instituto são resgatados de diferentes maneiras. Por meio do monitoramento de praia independente que ocorre do Espírito Santo á região de Lagos, Rio de Janeiro, pela polícia ambiental, por populares ou pelos funcionários do Ipram. Além do Iema, o instituto conta também com a parceria do Ibama e de empresas privadas.

A maioria deles chega sem nem conseguir ficar em pé. E o primeiro atendimento envolve a estabilização dos parâmetros clínicos, com recuperação da temperatura e hidratação. Depois disso, eles podem ter acesso a piquetes externos com acesso à piscina. Antes de serem devolvidos à natureza, os biólogos e veterinários do Ipram os submetem a exames sanguíneos e de impermeabilidade das penas. Um pinguim pode ficar em tratamento de 1 a 6 meses.

Durante a recuperação alguns pinguins morrem ou ficam impossibilitados de voltar ao seu habitat. “Alguns podem ter lesões ortopédicas, alterações hematológicas ou falhas nas penas, prejudicando a impermeabilidade”, argumenta Renata Bhering, diretora executiva do Ipram. Hoje não há no estado um espaço fixo que represente seu habitat para deixar os pinguins. Por isso, pinguins que não podem voltar para suas colônias permanecem no Ipram até serem enviado para algum zoológico fora do estado.

O processo de soltura dos pinguins recuperados é feito em Anchieta. O Ipram leva-nos de barco a 20 km da costa e ali os solta, porque é nessa região que passam correntes que facilitam a viagem dos pinguins de volta para casa, para a Patagônia.

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