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As fotos que estão ao longo da matéria Pelo direito de parir em paz fazem parte do projeto fotográfico 4:1 Retratos da Violência Obstétrica. As responsáveis pelo trabalho são Carla Raiter (à esquerda), fotógrafa e mãe de Gael, de 2 anos, nascido através de um parto humanizado, ela assume a parte prática e técnica do projeto, fotografando as mulheres e seus relatos; e Caroline Ferreira (à direita), produtora cultural e mãe da Luísa, que chegou há 11 anos por meio de um parto violento, assume a produção e logística do projeto.

- Em que contexto surgiu o Projeto 1:4? Fale-nos um pouco sobre a história do nome do projeto também.

Carla – O projeto surgiu de um misto de coisas: um desejo de ter um projeto fotográfico e meu engajamento pela melhoria do atendimento ao parto e pela redução da violência obstétrica. Já trabalhava como fotógrafa de partos humanizados, mas um dia a Carol sugeriu um trabalho com a violência obstétrica, e a epifania aconteceu ali – até então, eu só pensava nos partos respeitosos, nunca tinha pensado em fotografar qualquer coisa que envolvesse o outro lado, a outra ponta da corda – era justamente contra ela que eu sempre exerci qualquer tipo de ativismo. E daí veio o tom da denúncia, dos relatos que aparecem nas imagens.

O nome do projeto se baseia na conclusão da pesquisa da Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc: no Brasil, 1 em cada 4 mulheres sofre algum tipo de violência durante o atendimento ao parto.

- Conte um pouco sobre a história das organizadoras do projeto e suas respectivas experiências com a maternidade.

Carol – Eu sou Carol, mãe da Luísa, que fez doze anos e foi uma filha muito esperada. Mas a Luísa chegou em um atendimento violento e em uma cirurgia desnecessária. E, por muito tempo, enquanto eu ainda não entendia o que tinha acontecido durante minha estada no hospital, eu afirmei que não teria mais filhos – só pra não ter que passar por aquela experiência ruim e doída de novo.

E, embora o “ser mãe” não possa ser medido apenas pela experiência do nascimento, é inegável que o que se perdeu ali não é resgatado, não existe substituto e não dá pra ignorar.

Pelo resto da vida, eu vou saber que perdi a única chance que tinha de dar um parto respeitoso pra minha filha.

Carla – Eu sou mãe do Gael, que tem hoje 2 anos e 3 meses. Eu descobri a humanização do parto, os grupos presenciais e virtuais de apoio ao parto ativo e humanizado ainda durante a gestação, e planejei um parto domiciliar. Gael nasceu no nosso quarto, no tempo dele, sem nenhuma intervenção, e foi a melhor experiência da minha vida; tenho saudade do trabalho de parto e do parto até hoje.

Depois de passar por essa experiência, continuei envolvida com o tema e com os grupos de apoio, e juntei com isso a paixão que já tinha por fotografia. Passei a fotografar partos humanizados hospitalares e domiciliares, e me tornei de vez uma ativista da causa do nascimento com respeito.

Com certeza a maternidade não se resume ao parto, mas por que não podemos já começar com respeito por aí, não é?

- Vocês esperavam que tantas mães se sentiriam tocadas e abertas a compartilharem suas histórias?

Carol - Eu não esperava a proporção que o Projeto ganhou. Porque, nos nossos círculos, as histórias eram comuns. Mas, fora destes círculos, eu não tinha uma expectativa exata de como seria a receptividade do público aberto, geral. Foi inesperado e triste perceber que todo mundo tem uma história de violência obstétrica pra contar. Lidamos com muitas mulheres que, até conhecerem o Projeto, nunca tinham tido coragem de dividir suas histórias com ninguém, nem mesmo a família. Outras tantas têm relatos próximos de violência, vindos de suas mães e irmãs, e passam a informação adiante e incentivam a participação porque, veem no Projeto um canal e uma voz para o que, às vezes, ficou guardado por muitos anos.

- Como vocês chegaram às mães que foram fotografas e como surgiu o conceito das imagens?

Carla – Todo o conceito das imagens veio de forma muito instantânea, coisa de segundos mesmo… assim que a Carol sugeriu o tema, eu consegui visualizar as imagens que eu queria fazer: nudez recortada, anônima, preto e branco… o difícil foi achar um meio de executar, de transcrever os relatos na pele das mulheres de forma nítida e com a tipografia que eu queria.

Mas era um conceito difícil de explicar, não existia uma foto parecida para mandar de referência; então decidi fazer um piloto com mulheres que eu já conhecia dos grupos de apoio ao parto dos quais participei e ainda participo – é muito comum haver mulheres que sofreram violência em um parto anterior (ou mais de um) e buscam uma história diferente numa segunda, terceira gestação. Abordei algumas mulheres, expliquei o conceito e as fotografei (Carol foi uma das fotografadas também). Em 8 de março lançamos o site e a página do Facebook já com essas fotos, e a partir daí a participação passou a ser espontânea: mulheres de todas as regiões do Brasil, com as quais nunca tive contato, enviam suas histórias e pedem para serem fotografadas.

- Para vocês, a que se deve a falta de debate na sociedade brasileira sobre esse tipo de questão?

Carol - Essa é uma questão complexa, que rende longa discussão. Para começar, somos uma sociedade pouco dada ao debate, patriarcal, machista e institucional, e a violência obstétrica está intimamente ligada à questão de gênero. O parto é um evento sexual e, no inconsciente coletivo, isso deve ser punido, a mulher deve ser castigada.

Além disso, o reconhecimento da violência obstétrica enquanto violência ainda patina, a informação é pouco disseminada e a mulher tende a ser desacreditada. Pronto, está aí a receita pra um tabu. Acho, ainda, importante ressaltar que a violência obstétrica atinge indistintamente todas as classes sociais, nas redes públicas e privadas de saúde.

Na outra ponta da corda, está a comunidade médica, naturalmente corporativista e gozando de bom crédito.

E hoje, especialmente nos grandes centros brasileiros, vemos crescer a indústria do nascimento – toda sorte de produtos e serviços pra glamorizar o nascimento. E o principal, que é o atendimento prioritário e incondicional da mãe e do bebê é deixado em terceiro, quarto plano. A mulher e a família, muitas vezes incautas, desinformadas e acreditando que estão fazendo o melhor, consomem esses itens, sem se questionar que tipo de atendimento receberão; se o hospital vai respeitar a lei do acompanhante; quais procedimentos são necessários ou não; ou, ainda, se serão atendidos com o mínimo de humanidade.

Também como fator, a iconografia e a tradição oral associadas ao nascimento são de dor e de sofrimento. E gravidez e parto não são, não devem e não precisam ser dor e sofrimento. Mas, quando é esse o tipo de informação replicada e creditada – especialmente pelo senso comum – as pessoas tomam por verdade e são ainda mais resistentes à mudança.

Resumindo, são fatores sociais, culturais impedindo a discussão, são dogmas. É também o sentimento de vergonha da mulher que se vê fragilizada, que pensa que falhou como mãe, porque foi vítima de violência obstétrica.

É exatamente o mesmo paralelo da mulher vítima de violência sexual e que tem vergonha de denunciar. Dizer para uma mulher que “na hora de fazer não doeu” é tão brutal e violento quanto o “pediu para ser estuprada”.

Felizmente, já vemos vozes e mobilização trabalhando para mudar o cenário, que hoje é desolador. Mas também sabemos que é um trabalho de formiga, de gerações. Que muitos relatos ainda serão recebidos pelo 1:4 e que muitas mulheres e bebês ainda serão violados antes de mudanças efetivas na condução do atendimento materno no país.

Confira o site e a página do Facebook do Projeto 1:4
http://carlaraiter.com/1em4/ 
https://www.facebook.com/projeto1em4?fref=ts

 

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