Dona Nazareth: “Noiva é sonho”

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[h4]Com 45 anos de costura, dos quais doze no ramo de noivas, ela comanda um dos ateliês especializados em casamentos do tradicional bairro do Parque Moscoso[/h4]

Any Cometti – Ela se veste como todas as outras funcionárias. Sapatos baixos, uniforme da empresa. “Nem brinco eu uso”. Dorme cedo e gosta de estar de pé às 8h, que é quando abre a loja e ateliê no centro de Vitória, no tradicional bairro do Parque Moscoso.

Enquanto me apresentava suas criações, não escondia a paixão pelo trabalho. “É, minha filha, essa aqui é a minha profissão. Mas está acabando. Ninguém mais quer ser costureira”. No primeiro dia de trabalho no atual atelier Nazareth Noivas, em 2001, com uma porta bem pequenininha aberta, muita chuva lá fora e poucas produções prontas, já apareceu gente procurando pelo tão sonhado vestido de noiva. Com o tempo, as encomendas foram crescendo e o negócio prosperando. Ela passou a concorrer com peixe grande, lojas clássicas do Parque Moscoso, e declara, convicta, que não ficou para trás. Ficar rica, não dá, mas a paixão pelo trabalho compensa.

Somando 45 anos de costura, dos quais há 12 no ramo das noivas, Nazareth viveu bem as mudanças nos casamentos ao longo do tempo. Para ela, o sacramento está cada vez mais banalizado. Com a facilidade no divórcio, as pessoas se separam “e já colocam outro no lugar”. Tem casal que já entra na loja, antes do casamento, se desentendendo, sem uma gentileza mútua, necessária à convivência diária. E também tem muita noiva mais velha casando, “muita mesmo”. Em especial, lhe chamou atenção o caso de uma senhora de 72 anos, que ficou viúva com 50 anos de casada e, 8 meses depois, já estava casando de novo. “Passa tanta gente doida por aqui…”.

Em meio ao trabalho e à tensão com os prazos e desejos dos clientes, há muita diversão. Ela se delicia com os vestidos para festas de 15 anos, um dos setores da confecção. “É preciso entrar no mundo dos adolescentes. É gente que gosta de tudo novo.”

Toda essa história começou quando Nazareth ainda era criança. Aos 11 anos, observava as costuras das roupas que lhe eram feitas. Nenhuma a agradava, tanto que a mãe nunca mais a deixou pagar uma costureira depois que, ao pedido de um vestido com “bolso cheio”, recebeu um com “bolso quadradão”. Uma vez, quando a mãe ficou doente, aproveitou que a máquina de costura, xodó da matriarca, estava livre e costurou um vestido para uma mulher “muito grande e muito gorda”. O tamanho da peça obrigou Nazareth subir na cama para estendê-lo e costurá-lo. “É, minha filha, vi que com você não posso”, ouviu da mãe. Aos 15 anos, já costurava para toda a família e fazia enxovais de bebê, que barganhava por banha e óleo de cozinha, moeda de troca no lugar onde vivia, no interior de Minas.

O pai, homem de pouco estudo, mas de muita sabedoria, comprou os primeiros panos para que a filha desse os pontos iniciais. “O meu tecido ninguém vai falar que você estragou”. A primeira camisa que Nazareth costurou, ele usou em foto de documento.

Anos depois, a costureira arrumou um marido tão louco quanto ela, como dizia o pai, porque lhe dava extremo apoio, inclusive no par de vezes em que abandonou a produção têxtil e se dedicou ao próprio ateliê ainda em terras mineiras e, depois, em solo capixaba.

Antes disso, Nazareth encontrou um emprego numa fábrica de roupas, a primeira em que trabalhou, ainda em Bom Jesus-MG. Mas não havia oportunidade de crescimento profissional. “O patrão não me deixava aprender outras técnicas, a mexer com outras máquinas. Ele dizia que já tinha gente para fazer o que eu queria, como quem diz: fique onde você está”. Então, chegou em casa e declarou ao marido que queria abrir seu próprio ateliê. E ele a apoiou. No outro dia, pagou um alfaiate para que a ensinasse os cortes que ainda não sabia. Procurou o ponto e, desde então, nunca ficou sem serviço. “Eu tenho oito cunhadas que aproveitavam a costureira e pagavam direitinho!”, diz, rindo.

O lugarzinho está lá, em pé, até hoje. “Ali começou minha história”. Com um ano e um mês de trabalho, montou sua casa só com o dinheiro da costura e até se mudou para uma outra onde pôde montar seu ateliê no mesmo local. Conta com orgulho que sempre que o marido chegava em casa, cansado do trabalho, e levantava a toalha da mesa, tinha dinheiro para passear e para jantar fora.

O primeiro ateliê capixaba nasceu no início da década de 80, quando a família precisou se mudar para cá. Nazareth foi trabalhar em fábrica e pendurou uma placa na porta de casa, em São Diogo, na Serra, dizendo que ali trabalhava uma costureira. Um dia, a Marlete, irmã que morava com ela e hoje ajuda no ateliê, disse: “ou você arranca essa placa daí, ou você volta pra dentro de casa, porque chega toda hora gente procurando a costureira”. E assim fez: comprou uma máquina de costura e foi trabalhar em casa, onde permaneceu por mais seis anos, até se mudar para Barcelona, no mesmo município, onde permaneceu por mais 18 anos.

A demanda por vestido de noiva era antiga, desde quando morava em Minas. Mas nunca tinha topado o desafio de costurar um, exceto o seu, com o qual casaram cinco outras mulheres. “No dia do casamento da Lady Diana, eu fechei a loja pra ver e fiquei apaixonada. Era tudo de bom! Pensei: Eu acho que consigo fazer um vestido daquele. Mas não tentei”. E ela só colocou a mão na massa, para o início de uma história de sucesso, muitos anos depois.

Na virada dos anos 2000, lembra, o mundo ia acabar e todo mundo queria casar. Lá em Barcelona, apesar do trabalho não ser valorizado, fez três vestidos de noivas e seis daminhas. “Esse negócio vai dar certo”, pensou. No ano seguinte, seguindo conselhos de um conhecido, “entendido do assunto”, foi para o centro de Vitória, lugar que os clientes da Serra já citavam como referência para o ramo.

Hoje, Nazareth se especializou no ramo de casamentos. Faz vestidos personalizados para as clientes, e depois fica com eles, para aluguel futuro. “Para quê vão querer guardar um trambolho desses, que não vão usar nunca mais?”. Corta o pano com base nas medidas das clientes, porque a roupa tem que caber na pessoa, não o contrário. A moda muda, todo dia. Agora, se usa muito vestido de noiva curto, mas também se tem muito apreço pelo vestido clássico. Não adianta, “noiva é sonho”.

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