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(Leandro Reis e Rebeca Santos)

Saulo Ribeiro é um cara ocupado. Na última terça-feira (09), quando a reportagem foi ao lançamento de “Corpo de delito & Rip e Cal”, seu novo livro, não houve tempo hábil para uma conversa mais demorada. Ali, num casarão de muro vermelho, no Centro de Vitória, acontecia a inauguração da Má Companhia – espaço que vai abrigar dois grupos de teatro e diversas manifestações artísticas -, com música ao vivo, exposições e muito falatório – o que seria fatal para qualquer tentativa com o gravador. E mais: apertos de mão, autógrafos nos livros, saudações e movimentações semelhantes impediam que Saulo trocasse mais de uma frase sem interrupção. Situação que, diante de uma noite de terça-feira chuvosa, mostra que há, sim, burburinho cultural inteligente em Vitória. Uma circunstância que o escritor ajudou a criar.

Além da costumeira camisa preta – apesar de, de uns tempos pra cá, alterná-la com tons mais claros –, Saulo se veste de arte. Publicou três livros: “Ponto Morto”, “Diana no Natal” e “Cárcere”, esse último uma peça que rodou Brasil, Estados Unidos e alguns países da Europa com Vinícius Piedade no palco, co-autor do texto. No cinema, colaborou com roteiros, entre eles “2 e meio”, em parceria com Alexandre Serafini. Na literatura, aliado ao trabalho de autor, ocupa o cargo de editor da Cousa. Volta e meia participa de debates acerca da produção e difusão cultural, escreve sobre o panorama do teatro no Espírito Santo e toma uma gelada na Rua Sete. Entre todas essas atividades, arrumou fôlego para conversar por email sobre “Corpo de delito & Rip e Cal”.

Saulo Ribeiro lança "Corpo de delito & Rip e Cal", reunião de dramaturgias inéditas

Saulo Ribeiro lança “Corpo de delito & Rip e Cal”, reunião de dramaturgias inéditas. Foto: Ariny Bianchi

Reunião de duas dramaturgias de Saulo Ribeiro, a primeira parte se passa na década de 30 do nosso século. Uma província possui um serviço que melhora o aspecto do corpo de indigentes para enterro. Ocorre o diálogo de dois funcionários enquanto um corpo é trabalhado para sepultamento. Pelas palavras, percebe-se que o futuro é muito parecido com o presente. Seguem-se as cenas, pontuadas pelo sarcasmo característico do autor ilustrando os problemas futuros da humanidade, que assemelham-se muito com o que temos hoje. “Rip & Cal” se sustenta no mesmo tom da primeira. A história é conduzida por dois irmãos andarilhos que resolvem construir um novo mundo. No entanto – e aí a semelhança com “Corpo de delito” –, a dupla vê que tudo que é construído é igual ao que já existe.

Embora Saulo Ribeiro tenha experiência em construir textos para o palco, as dramaturgias, inéditas, não têm data para transposição. “Acho que são dramaturgias para leitura, daí a publicação. Mas isso não quer dizer que não possam ser encenadas”, comenta. “Só sei que o diretor, se quiser montar, vai ter muito trabalho”.

Saulo entende a ficção como um problema entre a palavra e o autor. O território, dessa maneira, é mais restrito que o do teatro, que precisa trabalhar, além da distância entre criação e criatura, o toque do ator.

“Achar o ponto exato no teatro é complicado. A palavra sai do papel para entrar no corpo do ator, tudo mediado por um encenador, e o destino é o espectador. Há muitos atravessadores entre a palavra e seu destino“, explica Saulo.

Ele diz, ainda, que o ponto exato entre o dramaturgo e o escritor mereceria maiores estudos. “Nem tudo que funciona como escrita funciona como cena. Há, claro, dramaturgos que conseguem extrapolar esse lugar. Mas isso não é pra qualquer um. Eu sou um escritor que escreve dramaturgia. Não sou um dramaturgo”.

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