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(Rafael Gonçalves)

O palco era simples, modesto. Foi improvisado sobre um chão surrado de pedregulhos, encharcados pela chuva que se atreveu em dar as caras no dia anterior. Entre a guitarra, o baixo e a bateria, apenas fios separavam um equipamento do outro. Caixas de sons e microfones, camuflados pelos cipós e trepadeiras, passaram despercebidos a olhos nus. Para o vocalista, então, cabia à árdua tarefa de dar passos pequenos, sem exagero, em meio aos degraus e barrancos que o isolaram do público. E para quê telão de LED e canhões de laser quando imagens em sua pura essência arquitetam todo o cenário natural. E foi assim, nada de mordomia nem de efeitos especiais, que as bandas do Festival Tarde no Bairro soltaram as feras, ali mesmo, no que restou ainda da Mata Atlântica, no Parque da Pedra da Cebola. Sem pausa para descansar, ponto marcante da Tarde. Dança, piquenique, sarau, bandas – Lemon 55, Casatorna, The Muddy Brothers e Band Boys e o DJ Shita Sound Circus…ufa, haja fôlego!

Sem títuloMinutos antes de subir ao degrau mais alto do espetáculo, com o repertório quase rasgando a garganta, que o guitarrista da Banda Casatorna, Diego Locatelli, realçou a peculiaridade do evento. “É de suma importância essa confraternização entre bandas e amigos, uma vez que há a troca de informações entre diversos nichos culturais que compõem nossa sociedade. Esse envolvimento é à base de toda e qualquer formação do homem”. Ele destacou também que o festival é uma das portas de entrada para novas bandas que estão surgindo no mercado. “A Grande Vitória em si não tem muita demanda voltada para momentos como esse. Por isso, toda ação, por menor que for, estimula novos artistas e agrega valores, através do repertório que ajuda as pessoas a refletirem sobre uma porção de coisas cantadas nas letras das músicas”.

Quem foi prestigiar a programação deparou-se com uma mistura diferente entre pop, rock, metal, eletro e um pouquinho do clássico da Lemon 55. A banda ousou nas mixagens e levou até o som do violino nas suas batidas. “Queremos contagiar e emocionar a galera através da nossa arte. Vamos deixar todos pilhados, principalmente, nas últimas melodias, embalados para o próximo grupo a se apresentar”, ressalvou Anderson Widenhoeft, membro da banda. Ele reconhece o valor do festival e diz contente com tamanha dimensão. “Ajuda, exclusivamente, na divulgação do nosso trabalho, porque escuto muito as pessoas reclamarem que o Espírito Santo é o cemitério da música. E quando acontece uma inciativa como essa, só vem beneficiar os músicos capixabas no quesito profissional”.

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 O tablado mais alto das atenções não ficou restrito a apenas aos músicos, mas artistas plásticos, escritores e desenhistas tiveram seu momento de estrelato. Os tímidos guardaram para si, na memória ou no coração, palavras de esperança ou de insatisfação; outros, com a coragem, sem medo de expor o que pensavam, tomaram voz e declamaram o que sentiam, em meio à multidão. Era por meio de uma batida ou lendo as folhas de um brochurão rasurado, que um a um deixava os desejos e os medos virem à tona, como um grito de liberdade. “Amar o próximo, viver intensamente, curtir a vida adoidado, não jogar lixo no chão, orgulho da etnia…”e foi assim, palavra após palavra, desconexas – às vezes não, com rimas pulando da ponta da língua que o jogo de palavras, ou melhor, os poemas, foram sendo construído ao som do rap.

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De um galho a outro, varais se estendiam mata adentro. Metros e mais metros de obras, produzidas pelas mãos de jovens, artistas anônimos, que almejam arrancar no íntimo o amor e o ódio, a tranquilidade e a inquietude, uma lágrima ou um largo sorriso, um convite perfeito para exercitar o olhar e a mente. Os arrojados, buscando um novo conceito de arte, exibiam ali mesmo em cima do verde da grama seus trabalhos. Gente e mais gente se amontoavam para ver de perto horas de dedicação, rabiscadas em cima de uma folha de A4.

Pausa para uma boquinha! Cangas forravam o gramado do santuário verde. Rodas de amigos por todos os lados. Conversar, sorrisos, abraços… tudo em clima de amizade. E quem não tinha um pedaço de pano, o jeito foi improvisar com a camisa ou sentar no chão mesmo. Quem não entrou no clima foi pego de surpresa. Eram visitantes, atletas e curiosos.

Longe dos olhares, numa sombra projetada por um pequeno arbusto, a movimentação parece não incomodar Gabriel Merlo. Apático, quase sonolento, ele aproveita para observar a andança. Em suas primeiras palavras, confissão de um profissional do ramo da moda. “O público está bem diversificado. Não dar para caracterizar quem é isso, quem é aquilo. São crianças, jovens, adultos, homens e mulheres de todas as idades. Um misto perfeito para a permutação de valores”.  Gabriel, morador de Vila Velha, frisa a relevância do encontro para o cenário capixaba. “Em Vitória, especialmente, existe uma carência enorme de eventos nesse mesmo segmento. Na maioria das vezes, manifestações assim de mesmo patamar ou são fechados ou são pagos, o que deixa parte da sociedade às margens das mostras. Quando tem algo gratuito, como é o caso de hoje, as pessoas comparecem e apoiam”.

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Do céu, caíam borbulhas brilhantes. O segredo para todo o encanto, nada mais era, que um copinho com produto de limpeza e ar no pulmão. Depois, um pouco de fôlego e pronto, chuva de bolinhas de sabão pairavam no ar. Uma a uma se desfaziam com a força força do vento. E com dedinho ainda em formação, Pedro de apenas cinco anos, perfurava a delicada membrana das nuvens de sabão. “Vai mãe, faz mais…”, pedia o menino. “À tarde é de brincadeira, de muita música e pessoas agradáveis”, frisou mamãe, Sheila Canal, preparando mais bolinhas no potinho. “É uma espaço para família, lugar que tenho certeza que meu filho pode frequentar. Hoje, por exemplo, resolvemos trazer Pedro para ouvir música. Desde novinho, eu e meu marido, estimulamos Pedro a gostar de melodias. Ajuda na formação dele e faz bem a alma”, destacou.

O festival que era, em seu projeto inicial, um projeto para ser executado numa tarde, acabou se desenrolando sob a luz da noite. A essa hora do dia, a energia não era mais a mesma das horas iniciais do dia. A voz intensa e gritante, agora rouca. Pulos alegres e reverentes foram rendidos pelo cansaço. A beleza da arte ofuscou-se em meio a escuridão. O domingo despedia-se dos convidados. A Tarde se foi, mas deixou uma vitrine de artistas que merecem respeito e um olhar especial para os que fizeram da Pedra da Cebola palco de encontro para os órfãos de música, que asseiam levar a cultura capixaba para outros cantos do país. >>>Fotos: Yuri Barichich e Maria Eduarda Gimenes

Confira quem circulou pela Tarde no Bairro

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