Igreja do Rosário

Igreja do Rosário

Igreja de São Gonçalo

Igreja de São Gonçalo

Capela de Santa Luzia

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(João Carlos Fraga, Reuber Diir e Will Morais)

Aprofundando-se nas histórias das igrejas do centro de Vitória, encontramos informações surpreendentes, que demonstram características sociais, militares e econômicas da capital do Espírito Santo no Brasil Colônia.

Naquela época colonial, igrejas eram lugares de grande relevância social. Cada uma frequentada por classes específicas, e, como consequência, com histórias diferentes a serem contadas.

Eram construções para o culto, algumas utilizadas como fortalezas e pontos estratégicos, outras reluziam o poder e a reafirmação de várias classes sociais.

Você é nosso convidado para realizar uma visita às igrejas do centro histórico de Vitória, na qual viajaremos por cultos religiosos, escravos alforriados, covas em paredes, irmandades e crenças. São várias as histórias contadas por cada parte dessas construções centenárias.

 

Santa Luzia sobre a Rocha

 

 

Considerada a construção mais antiga preservada de Vitória, a Capela de Santa Luzia é pequena e delicada aos olhos. Mas, na época colonial, serviu como ponto estratégico para os portugueses que se instalaram no Espírito Santo.

Edificada sobre a rocha, entre os anos de 1537 e 1540 tem a porta de entrada voltada para a baia de Vitória e, por isso, era usada como forte, já que permitia a vigilância contra ataques de invasores estrangeiros e protegia a população em caso de batalhas. Além disso, existiam duas janelas no fundo da capela para observação do terreno em volta e, assim, prevenir contra ataques indígenas.

Duarte Lemos construiu a capela em sua fazenda, que recebeu de doação do Capitão-mor Vasco Fernandes Coutinho, na época, o donatário do Espírito Santo.

A parte interna da capela é separada pela nave, onde eram realizadas as celebrações religiosas e pela capela-mor, local em que está a imagem de Santa Luzia, com seus adornos.

A última missa realizada na Capela de Santa Luzia foi em 1928. Depois disso, ficou abandonada e quase desmoronou. Foi quando o arquiteto italiano André Carloni, em 1940, refez parte da parede e o teto. Sua estrutura arquitetônica é eclética, mas com as características marcantes do período colonial.

Em 1946, o Governo Federal tombou o monumento como patrimônio histórico. Lá, também Abrigou o Museu de Arte Sacra e a Galeria de Arte e Pesquisa da Ufes. Hoje, mesmo não

ocorrendo celebrações religiosas, devotos vão agradecer e deixar objetos para a santa em agradecimento às bênçãos conquistadas.

A Capela de Santa Luzia está localizado na Rua José Marcelino, na Cidade Alta e, atualmente, sob gestão do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -IPHAN. Está aberta gratuitamente à visitação monitorada, que é realizada pelo Projeto Visitar.

 

Igreja de São Gonçalo: tradições ainda vivas

 

 

A Igreja de São Gonçalo foi construída em 1707. Desde aquela época mantém duas tradições: missas em latim e a fama de assegurar casamentos duradouros.

As celebrações religiosas acontecem todo último sábado de cada mês, sempre às 8 horas. O padre faz suas pregações em latim, de frente para o altar e de costas para os fiéis, mantendo a tradição católica dos tempos iniciais da Igreja Católica Apostólica Romana.

Além disso, a expressão “até que a morte os separe” permanece viva para os matrimônios ocorridos na Igreja de São Gonçalo. Diz-se que, até hoje, nenhum casamento realizado na igreja foi desfeito. É o preferido das noivas. A agenda de casamentos está lotada até 2014.

A igreja, que na época colonial era considerada igreja de homens pardos, abriga duas irmandades, a de Nossa Senhora da Boa Morte e de Nossa Senhora de Assunção, e tem como santo padroeiro São Gonçalo Garcia.

Com frente caracteristicamente barroca, sua estrutura arquitetônica é composta, assim como a capela de Santa Luzia, de nave central e altar-mor, com imagens de vários santos. No lado direito do altar, está Santo Inácio de Loyola, e no esquerdo, imagem de Nossa Senhora da Cabeça, santa protetora das enfermidades da cabeça, cuja missa é sempre celebrada no dia 28 de novembro.

Há também as imagens da São Gonçalo Garcia e Nossa Senhora da Boa Morte, esta na posição deitada e protegida por uma urna de vidro. Ambas as esculturas estão no centro do altar. Na parte mais alta está a réplica em tamanho menor da imagem de Nossa Senhora da Assunção. A imagem original fica dentro da sacristia e é usada nas festasdas irmandades e nasprocissões que acontecem nos dias 14 e 15 de agosto.

Quando a Igreja de São Tiago (Palácio Anchieta) foi demolida, a Igreja de São Gonçalo recebeu a sede paroquial, em 1911. Em 1948, a Igreja e as imagens foram tombadas pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

A edificação está localizada na Rua São Gonçalo, na cidade Alta, atrás do palácio Anchieta. Está aberta para visitação monitorada através do Projeto Visitar.

 

O convento de São Francisco: o primeiro local com água encanada

 

 

Na parte mais alta da Cidade Alta, está o convento de clausura São Francisco. Em estilo eclético, com características da arquitetura jesuítica de linhas retas unindo aos adornos do estilo barroco, o convento já recebeu várias restaurações.

Mas em 2009, na restauração da capela de Nossa Senhora das Neves, dentro do convento, foram achados, na parede do altar, ossos humanos. Não se sabe de quem são, mas, de acordo com os restauradores, o mais provável é que sejam de freis que residiam no convento. A capela foi construída em 1856 e serviu de necrotério.

Já o convento é datado de 1591. Considerado o mais antigo da região sul do Brasil Colônia, foi construído por dois padres franciscanos, Antônio dos Mártires e Antônio das Chagas. Da estrutura original, somente a fachada permanece de pé hoje e está sendo restaurada pela ONG Instituto Goya.

Abrigou duas irmandades que tinham como santo de devoção São Benedito, que também era Franciscano. Lá, também era o único local em que se podia fazer missas para os negros até a construção da Igreja do Rosário.

O átrio do convento foi o primeiro cemitério público de Vitória. Alguns corpos de membros das irmandades e frades enclausurados estão enterrados no local. Especula-se que os restos mortais do Frei Pedro Palácios, fundador do convento da Penha, estejam no local. Os corpos que foram reconhecidos pelos familiares estão hoje no cemitério de Santo Antônio. Sobre os túmulos que ainda restaram no convento, está uma torre com a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, demarcando o antigo cemitério.

Ali, foi também o primeiro local, em Vitória, com água encanada. Em 1643, foi construído um aqueduto que trazia água do morro da Fonte Grande até a cozinha do edifício. Além disso, aconteciam sorteios para alforriar escravos.

O local, além de ser convento, já abrigou escola e uma enfermaria. Em 1926, o Padre Leandro Dell Homo destruiu parte da estrutura para construir o Orfanato Cristo Rei, que funcionou até 1960. Foi usado pela Rádio Capixaba e pelo Colégio Agostiniano. Hoje, é sede da Cúria Metropolitana de Vitória.

O convento de São Francisco está localizado na Cidade Alta, na rua Soldado Abílio Santos e está aberto à visitação monitorada pelo Projeto Visitar.

 

Convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo: túmulo de um bispo

 

 

Além de ser o convento das Carmelitas, a Igreja do Carmo era frequentada pelos brancos e moradores mais ricos de Vitória. Construída em 1682, tem estilo colonial com características barrocas.

No seu altar-mor está o túmulo do segundo bispo de Vitória, Dom Fernando de Souza Monteiro, irmão de Governador Jerônimo Monteiro. Os restos mortais estão enterrados desde

1916. De acordo com os monitores do Projeto Visitar, o bispo tinha o desejo de ser enterrado lá porque gostava muito do local.

O Convento era formado pela Igreja do Carmo e a Capela da Ordem Terceira. Dom Pedro II, em 1860, considerou a Capela como a mais bonita que ele visitou. Ao longo de sua história, a igreja teve como padroeiras Nossa Senhora do Carmo seguida de Nossa Senhora Auxiliadora e de Nossa Senhora das Graças. Com o fim das funções seminarísticas e, consequentemente, o abandono do prédio, no século XVIII, o governo administrou o local e usou para várias funções como, por exemplo, quartel militar. Em 1896, a igreja católica reassumiu com a criação do Bispado do Espírito Santo e passou a receber escolas.

Em 1910, com o desejo de modernização do Bispo Dom Fernando Monteiro e a coordenação do arquiteto André Carloni, a igreja e o convento foram reformados. Um novo andar foi construído e a parte da nave da igreja alterada. Em 1984, a fachada foi tombada pelo Conselho Estadual de Cultura. Nessa reforma, foi encontrada uma cruz antiga que não fazia parte da igreja, o que pode comprovar que a Igreja do Carmo tenho sido construída para substituir outra edificação mais antiga.

Hoje, além da imagem de Nossa Senhora das Graças no centro do altar-mor e o túmulo do segundo bispo de Vitória, há, também, logo na porta de entrada da igreja, dois confessionários de madeira.

A Igreja do Carmo está localizado na Rua Coutinho Mascarenhas, próximo à praça Irmã Josepha Hozanah, no Centro de Vitória. Está aberta ao público gratuitamente, com visitas monitoradas.

 

Igreja Nossa Senhora do Rosário, a igreja dos negros e escravos

 

 

Em 1765, o Capitão Felipe Gonçalves doou o terreno aos negros, localizado no morro Pernambuco, no centro da cidade, com a seguinte condição: a igreja só poderia ser construída em no máximo dois anos e teria que ser feita com terra e cal. Caso isso não ocorresse, o Capitão tomaria de volta para si o terreno. Os escravos negros cumpriram o acordo e se constituiu a primeira igreja onde somente negros e escravos participavam das missas.

No alto do morro, entre dois coqueiros imperiais e com uma escadaria de 88 degraus voltadas para a baía de Vitória, a Igreja do Rosário permanece com suas características coloniais desde a sua edificação e abriga a irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, padroeira dos negros e escravos, existente até hoje.

Antes da construção do cemitério de Santo Antônio, em 1912, os membros da irmandade eram enterrados em gavetas feitas no morro. Elas ainda existem, mas sem nenhum corpo. Após algum tempo, os ossos eram colocados nas paredes da igreja, onde permanecem até hoje.

No interior da igreja o altar-mor, com a Nossa Senhora do Rosário, sofreu modificações realizadas pelo arquiteto Italiano André Carloni.

Ao lado da Igreja do Rosário foi construída uma Casa de Leilões. Os membros da irmandade leiloavam seus pertences para arrecadar dinheiro e, assim, comprar alforria para os negros escravos.

Nesta igreja também há um história surpreendente de rivalidade. Nossa Senhora do Rosário era padroeira do negros, apesar de sua pele branca. Dessa forma, os membros da irmandade queriam um santo que tivesse a característica deles, como São Benedito, um santo negro e pobre.

No convento de São Francisco existiu também uma irmandade que tinha São Benedito como padroeiro. Assim, aconteceu que eram realizadas duas procissões somente com uma imagem, um dia saia do Convento e no outro saia da Igreja de Rosário. Além disso, a imagem ficava seis meses no Convento e os outros seis meses no Rosário. Em 1832, o guardião do convento de São Francisco não deixou a imagem sair de lá por conta do mal tempo. No outro ano, aconteceu a mesmo coisa. Porém, os membros da irmandade do Rosário furtaram a imagem do Convento.

A disputa entrou na justiça e, naquela época, a decisão foi favorável aos membros da irmandade de Rosário. Assim, os fiéis do Convento encomendaram outra imagem mais bonita e pujante, com adornos de ouro.

Por conta dessa riqueza, os membros de Rosário chamaram os membros da irmandade do Convento de Caramuru, um partido político conhecido pela arrogância. Achando que o apelido era em função do peixe parecido com um serpente, os irmão do Convento chamaram os de Rosário de Peroás, peixe de pouco valor. Assim começou a disputa entre as duas irmandades de qual procissão era a mais bonita, o que chegava até a violência.

Ao longo dos anos, a irmandade da Igreja do Rosário permaneceu e a do convento extinguiu-se. A primeira imagem de São Benedito permanece na igreja do Rosário até hoje, no lado direito do altar-mor da igreja, em um altar exclusivo para o santo. Todo o dia 27 de dezembro há uma procissão pelas ruas do centro de Vitória até a catedral.

Em 1945, a igreja do Rosário foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A edificação está localizada na Rua do Rosário, próximo ao prédio do Ministério Público Federal, no Centro de Vitória. É aberta à visitação gratuita e monitorada.

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Muito além de só contar histórias

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