O corpo e a alma na velhice

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(Felipe de Aquino e Leandro Reis)

O ambiente mais escuro do Pocar, festival de cultura de Conceição da Barra, também foi o mais intrigante da programação. Encenado dentro de um restaurante, com todas as luzes apagadas e algumas velas espalhadas pelo cenário, a peça de curta duração “Tropeço” estimulou a percepção do público, como uma montanha-russa marcada por duas pontas: o riso, de um lado; as lágrimas, do outro.

Concebido pela Tato Criação Cênica, do Paraná, “Tropeço” teve duas sessões durante o festival, que ocupou alguns pontos do município de 24 a 30 de janeiro deste ano. No espetáculo, os atores Katiane Negrão e Dico Ferreira vestem roupas pretas – camuflando-se no escuro – e utilizam apenas as mãos. Assim, dão forma a um casal de idosas com os movimentos corporais e onomatopéias, dispensando qualquer outro tipo de artifício de dramaturgia.

Eu trabalhava com o corpo, o Dico é mímico e usava bonecos. Quando colocamos um pano nas mãos, vimos as velhas”.

Katiane Negrão

Sobre uma mesa com baús e outros objetos pequenos, os atores criam o mundo costumeiro da velhice: um pequeno apartamento e a solidão compartilhada. Ali, no entanto, as personagens subvertem os estereótipos da terceira idade, a começar pelo tabu da sexualidade e, como a linha da vida já se encontra bem esticada, há questionamentos sobre a morte.

Dico dá vida a uma das velhas. (Foto: Reprodução)
Dico dá vida a uma das velhas. (Foto: Reprodução)

“No princípio foi uma coisa bem descompromissada. Começamos treinando em casa, cada um com sua técnica, experimentando as formas. Eu trabalhava com o corpo, o Dico é mímico e usava bonecos. Quando colocamos um pano nas mãos, vimos as velhas”, contou Katiane. Do treino caseiro, os atores resolveram passar chapéus em bares do nordeste brasileiro, “tudo muito hippie”, como pontuou Dico.

E deu certo. Os atores encenam “Tropeço” há oito anos e carregam prêmios pela América Latina. Em 2011, passaram por Macau, na China. O que viram ali foi uma grande diferença do público e um estranhamento em relação à reposta que ele (não) dava. “É um público muito mais fechado. A gente terminou o primeiro espetáculo e eles ficaram parados, com uma cara fechada. Pensamos ‘a galera não curtiu’. Mas eles gostaram, falaram que riram muito. São muito diferentes dos brasileiros, que têm uma resposta mais imediata.”

“Tropeço”, além de proporcionar cerca de meia hora de diversão e imersão total – a certo ponto, fica difícil desvincular as mãos de Katiane e Dico do corpo de duas idosas -, discute com delicadeza o universo da terceira idade. “Temos a mania de afirmar ‘velho faz isso’, ‘velho faz aquilo’. A intenção aqui é trabalhar as questões cotidianas, e trazer outros temas, como a homossexualidade. Sem panfletar, de maneira sutil”, explica Katiane.

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