Centro de Vitória: viagem entre símbolos da capital

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(João Carlos Fraga, Reuber Diir e Will Morais)

Entre prédios no centro de Vitória, escondem-se construções centenárias. Através delas, erguidas durante o Brasil colônia e nos períodos subsequentes, a Ilha do Mel conta, pouco a pouco, o seu passado.

São antigos casarios, fortes, praças e escadarias que ainda persistem em meio a altos e modernos edifícios. No local, prevalece o contraste entre várias épocas. Quem não conhece o centro histórico de Vitória pode optar por um passeio a pé.

Assim, traçamos um roteiro, partindo da ponte Florentino Avidos, próximo à rodoviária, com chegada ao antigo Forte São João, para mergulhar em uma viajem que destaca ícones da cidade. Uma caminhada que enaltece a história do município.

 

1 – Ponte Florentino Avidos: interligando dois mundos

 

 

“Governar é abrir estradas”. A frase atribuída ao ex-presidente Washington Luís (1926-1930) foi usada como slogan de seu governo para desbravar o interior do Brasil por meio de estradas e no Espírito Santo não foi diferente. Quem governava as terras capixabas era Florentino Avidos (1924-1928) e seu plano era interligar toda a Ilha de Vitória por meio de pontes que facilitassem o trânsito de carros e pessoas.

No início do século XX, Vitória não tinha a tecnologia necessária para construir uma ponte, então o governador contratou a empresa alemã Maschinenfabrik Augsburg Nuremberg para isso. Em 1927, a ponte, chamada de ‘Cinco Pontes’, chegava ao Porto de Vitória para interligar a ilha com o continente. Sua construção ocorreu ao mesmo tempo que o Porto de Vitória e teve participação importante na formação econômica do Espírito Santo, em especial na sua presença no mercado internacional.

A ‘Cinco Pontes’ tem 330 metros e é composta por cinco vãos de 66 metros, o que motivou o nome como é popularmente conhecida. No ano de 1930, o interventor João Punaro Bley manda colocar placas sobre a ponte, em todos os acessos, nomeando-a ‘Ponte Florentino Avidos’.

A ponte foi tombada como patrimônio histórico em 1986, devido à sua história e importância econômica, pois permitiu que os trens das Estradas de Ferro Vitória-Minas e Leopoldina acessassem o Porto de Vitória, trazendo seus carregamentos.

 

2 – Mercado Vila Rubim: da Cidade de Palha a Mercado

 

 

Saindo da ponte, com uma caminhada de cerca de 10 minutos em direção ao norte da capital, chega-se à Vila Rubim. Quando os imigrantes chegaram ao Espírito Santo, iniciaram sua interiorização passando pela ‘Estrada do Rubim’, em homenagem ao antigo governador da capitania do Espírito Santo, Francisco Rubim.

Conhecida como Cidade de Palha devido à sua visível pobreza, a Vila Rubim passou por transformações importantes ao longo dos séculos. O lugar abriga as mais variadas lojas, de artigos religiosos, peixarias, bancas de ervas, bares, restaurantes, açougues e supermercados, e lembra a história do Espírito Santo em cada esquina.

A Vila Rubim está localizada em um ponto estratégico que é a travessia entre os municípios de Vila Velha e Cariacica em direção ao centro de Vitória, o que facilita o comércio. Com os aterros dos mangues, feitos na década de 20, os moradores da cidade alta ocuparam as áreas ao redor da Vila Rubim, fixando-se nelas.

O mercado inicia-se na década de 40, marcando as transformações ocorridas na cidade. Até a segunda metade do século XX, as mercadorias eram vendidas “a céu aberto”. A vila era bem animada. Havia bares, gafieiras e casas com grupos musicais.

O espaço tem o ar da história do município de Vitória e resquícios do folclore capixaba. Parte dessa história se perdeu com um incêndio, em 1994. Sobrou de pé a imagem de Iemanjá. A tragédia, que teve início em uma casa de fogos de artifício, destruiu galpões junto com parte da memória local. Eles foram reconstruídos e parte dos comerciantes voltaram à ativa.

As casas do início do século XX foram demolidas ou reformadas e alguns estabelecimentos comerciais antigos ainda resistem à modernidade, o que vem produzindo contrastes na região. Atualmente, a poluição sonora e do ar é visível. .

Veja mais em: www.cidadedepalha.com

 

3 – Parque Moscoso: natureza no meio da selva de pedras

 

 

Deixando o mercado da Vila Rubim, seguimos em direção a zona norte de Vitória, pela avenida Duarte Lemos, e depois virando a primeira via à direita, na avenida Cleto Nunes, de onde podemos avistar a grande estrutura com formato de concha e as grades características do início do século XX. Ali é o Parque Moscoso.

Inaugurado em 1912, está situado em uma área de manguezal, conhecida como Lapa do Mangal, que foi aterrado no início do século XX. Com a expansão do comércio e o desenvolvimento da cidade, houve necessidade de se iniciar as obras de saneamento.

O parque, além de se tornar um espaço para o lazer, viabilizou a circulação de pessoas com a retirada do mangue. Com aproximadamente 24.000 m², o Parque Moscoso tem uma história de visíveis transformações ao longo dos séculos.

Apesar da prosperidade comercial do centro de Vitória, naquela época, a população ainda não gozava de boa qualidade de vida. A cidade não tinha infra-estrutura sanitária satisfatórias e as doenças eram frequentes devido ao péssimo estado da higiene pública. Naquele período, o desenvolvimento ocorria na Cidade Alta, centro de Vitória, onde se localizavam as Igrejas, conventos e residências. Com isso, as demais localidades sofriam com a negligência.

O projeto inicial, de 1908, lembrava uma praça com um enorme jardim. A inspiração veio dos bulevares e jardins parisienses, tornando-se, na época, local preferido das famílias mais abastadas da capital. O nome do parque foi em homenagem ao presidente da província, do período, Henrique Moscoso.

Ao longo dos anos, algumas intervenções foram realizadas no parque com o objetivo de realizar reformas estruturais e a construção de edificações, delineando o seu atual contorno.

 

4 – Palácio Anchieta: o centro do poder no Espírito Santo

 

 

Mais dez minutos de caminhada, em direção à cidade alta, encontramos o Palácio Anchieta e sua escadaria secular. Bem diferente da sua construção original, hojeabriga a sede do governo do Espírito Santo. O edifício se impõe ao olhos de quem passa pelo local. Turistas de todos os lugares são pegos fotografando e fotografando-se diante do Palácio.

Construído por padres jesuítas ainda no século XVI, o Palácio Anchieta abriga parte da história do Espírito Santo em cada um dos seus aposentos. Localizado na Cidade Alta, foi igreja e colégio jesuíta – Colégio de São Tiago -, até 1760.

Sua história começa com a chegada dos jesuítas e do Padre José Anchieta à Capitania Hereditária do Espírito Santo, no início da colonização, sob o comendo de Vasco Fernandes Coutinho, em 1535. Décadas depois, em 1551, começou a construção da igreja de São Tiago, todavia, como foi edificada em madeira, acabou sofrendo um incendiada.

José de Anchieta empreende, então, a erguer uma nova sede para igreja, agora em pedra, no mesmo local da igreja anterior, de frente para a Praça João Clímaco. A construção do novo colégio demorou dois séculos para terminar. Sua estrutura foi idealizada em alas para atender às necessidades do colégio.

A primeira ala foi concluída em 1587, pelo Padre José de Anchieta. Curioso é que o padre faleceu uma década depois e foi enterrado junto ao altar-mor, dentro da Igreja de São Tiago.

A segunda ala foi concluída 120 anos após e foi orientada para a Baía de Vitória, fazendo parte do quadrilátero que foi construído em 1747.

No século XVIII, o rei português Dom José ordenou que os jesuítas fossem expulsos do Brasil, o que acarretou uma grande deficiência nos mecanismos usados para o desenvolvimento da colônia.

Com a saída dos padres tanto de Portugal quanto de suas colônias, os habitantes do Espírito Santo viram algumas transformações acontecerem. Sem eles, o Colégio de São Tiago fica sob a administração do Governo da Província e, consequentemente, torna-se sede administrativa da capitania. Outra decisão foi a junção de vários serviços nas mãos do governo que passou a exercer as funções que os jesuítas realizavam, mas de maneira negligente.

No final do século XVIII, o colégio se restabelecia de outro incêndio. Após reformas o prédio passou a ser sede do Governo do Espírito Santo, sendo uma das mais antigas do Brasil.

 

5 – Catedral: o ponto mais próximo do céu, em Vitória

 

 

Em menos de cinco minutos de caminhada, quase vizinha ao Palácio Anchieta, ainda na cidade alta, avistamos a Catedral Metropolitana, com características da arquitetura neogótica do século XVIII, mesmo construída na era moderna.

Localizada na Cidade Alta, a Catedral de Vitória teve sua construção iniciada em 1920 e terminada 50 anos depois. Seu projeto inicial passou por modificações com o passar dos anos e teve ajuda de vários artistas e arquitetos.

A Catedral foi construída na Praça Dom Luiz Scoprtegagna, onde antes havia a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, até 1918. A necessidade de se ampliar o espaço para os fiéis e a manutenção da estrutura fez com que a antiga igreja fosse demolida e, com isso, construída uma com maior segurança.

Depois de algum tempo paradas, as obras voltaram na década de 30 sob o olhar do arquiteto italiano André Carloni, que aproveitou as partes existentes da antiga igreja, em estilo neogótico, com inspiração na Catedral de Colônia, na Alemanha.

Tombada pelo Conselho Estadual de Cultura, em 1984, atualmente, a Catedral é símbolo de Vitória e se destaca pelos seus vitrais.

 

6 – Teatro Carlos Gomes: vida e arte

 

 

Descendo a Cidade Alta, em direção à Praça Costa Pereira – outro símbolo do Centro Histórico, que vamos contar depois… -, se encontra o teatro Carlos Gomes. Situado no centro de Vitória, o Teatro Carlos Gomes foi inaugurado em 1927, tornando-se o mais importante de todo o Espírito Santo. Sua existência abre as cortinas para as artes que estavam órfãs com o incêndio do antigo Teatro Melpômene, que foi demolido.

O Carlos Gomes também foi projetado pelo arquiteto André Carloni, que o fez com um estilo arquitetônico neorrenascentista, uma réplica Teatro Alla Scala, de Milão. Sob os cuidados de Carloni, o teatro foi arrendado em 1929 como um local para a exibição de filmes, pois as apresentações teatrais eram esporádicas.

Após 1950, as peças teatrais começam a ser encenadas no palco do teatro, trazendo o glamour das artes cênicas novamente. No final da década de 60 há uma reforma estrutural do teatro. A peça “Liberdade, Liberdade”, de Paulo Autran, marcou esse processo. Nesse período, foi instalado o lustre central e realizada a pintura da cúpula, por Homero Massena. Essa reforma fez com que o Teatro Carlos Gomes fosse reinaugurado em 1970 e tombado pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC), em 1983.

 

7 – Forte São João: defesa da Ilha de Vitória

 

 

Mais a frente, descendo até a avenida beira mar, em direção ao Penedo, encontramos uma construção com seus canhões apontados para o mar.

Construída no século XVIII e localizada de frente para o Penedo, na Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes (Beira-Mar), o Forte São João foi inicialmente construído com paus e pedras, passando por posteriores melhoramentos. A fortaleza era uma base militar usada pelos portugueses para defender a Ilha de Vitória dos ataques de corsários.

No final do século XVII o Forte passou por uma recuperação, e em 1726, o engenheiro Nicolau de Abreu iniciou um projeto que daria o contorno do Forte São João. Para isso, ele implementou uma estrutura que contava com uma muralha de proteção, merlões, canhoneiras e 10 canhões que ainda resistem ao tempo, apontando para o mar, atualmente mais calmo, da Baía de Vitória. Os registros datam que a primeira planta do forte é de 1767. Ele foi gradativamente desativado, porém, a construção foi mantida.

Em 1924, a estrutura do Forte São João foi comprada pela cervejaria Brahma que reformou e ampliou seus ambientes. No local passou a funcionar o Cassino Trianon até 1930. Em 1931, o prédio foi comprado pelo Clube de Regatas Saldanha da Gama e sofreu reformas que modificaram sua forma inicial. O Forte do Saldanha passou a ser um lugar de lazer e convívio social. No início dadécada de 60, em 1961, a área à sua frente é aterrada, originando a Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, também conhecida como Avenida Beira-Mar. Atualmente o Forte abriga a Secretaria Municipal de Esportes de Vitória.

Leia mais:

Igrejas da Capital: fortes militares, rivalidade e lugares de fé

Muito além de só contar histórias

 

Confira nossas galerias de fotos:

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Ponte Florentino Avidos – Cinco Pontes

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Mercado da Vila Rubim

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Parque Moscoso

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Palácio Anchieta

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Catedral Metropolitana

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Teatro Carlos Gomes

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Forte São João

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As fotos das galerias e vídeos foram editadas através do Pixlr-o-matic.

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