Sai Momo, entra Penha

Share Button

(Rafael Gonçalves)

No terminal de Vila Velha, já era possível perceber os reflexos do último dia de carnaval: corre-corre para não perder o ônibus; entra e sai de coletivos pela plataforma; ombros, contorcidos, equilibram bolsas térmicas e vasilhas de plásticos recheadas com salpicão, feijão tropeiro, arroz e farofa; gente gritando, sorrindo, cantando, rodas de bate-papo se formando por todos os lados… um furdunço daqueles.

Dentro do transporte, ajeita cadeira ali, encosta guarda-sol aqui; esquiva chapéu por baixo, joga caixa de isopor por cima. Uma disputa pelos espaços ainda inabitados entre passageiros e bagagens. Enquanto alguns, embalados pelo som contagiante do funk de celular, se preparam para curtir o desfecho do feriadão nas belas praias, fiéis gratos e turistas de todos os cantos do Brasil se deslocam para o Convento de Nossa Senhora da Penha, em Vila Velha, para renovar votos e apreciar as paisagens encantadoras que o santuário proporciona.

Logo na entrada principal, região da Prainha, um engarrafamento toma conta do portão que dá acesso à estrada rumo ao topo do morro. Entre um veículo e outro, corredores de visitantes desfilam em meio ao caos do trânsito. Nas calçadas, fitas e terços colorem o comércio local. Há também camisas estampadas penduradas nos varais, imagens de santos esparramadas nas bancadas de ferro e chaveiros de “sejam bem-vindos” descansam pelas prateleiras. Da guarita azul, o guarda avisa aos motoristas que seguem morro acima: “Tomem cuidado! atenção!”.

Do lado de fora da janela do carro, árvores, canários, flores, pedras, borboletas, barrancos, árvores, besouros, graminhas, macacos, uau! Passarinhos, lama, adultos, crianças, cerquinhas, árvores, formiguinhas, placas, curva, árvores, árvores…atrás dos arbustos, raios iluminam os contornos de Vila Velha que ressurge entre os troncos. A folhagem seca e amarelada, típica da estação do ano, cobre o caminho. Minutos depois, pronto, chegamos! É quase impossível encontrar uma vaga para estacionar. Gente de toda parte do Estado e os cantos do país transita por todos os lados, subindo e descendo as escadarias.

Na sombra, construída pela porta que liga o caminho de pedestre ao pátio do convento, a pernambucana Renata Mello aproveita para fugir do sol e se refrescar com alguns goles de água. Cansada, com a respiração ainda ofegante por conta da subida, ela conta que a opção de ir até o convento se dá, primeiramente, pela forte crença no catolicismo. “Aqui encontro paz e serenidade, diferente de lá em baixo. Estava incomodada de passar o recesso em casa, sem fazer nada. Sendo assim, preferi subir até aqui, acompanhada do meu esposo.” Renata ressalta, também, que o poder do convento vai muito além de velhas ruínas.  “É um lugar onde você consegue recarregar as energias e ter um pouco mais de tranquilidade, além de fazer acreditar que tudo vai melhorar: menos violência e mais fé em Deus.”

“Adoro esse lugar. A vista daqui de cima é indescritível, paisagens aéreas maravilhosas que vão desde Vila Velha até Vitória”, admira a paulista Shirley Sanches. Emocionada, ela conta que veio, pela segunda vez, agradecer por todas as coisas boas que vêm acontecendo em sua vida. “Sou grata a Deus, a Jesus Cristo e a Nossa Senhora por oferecerem momentos felizes. Estou em terras capixabas desde quinta-feira e só tenho bênçãos para contar. Estou sendo protegida aos olhos do Pai e, nesses dias, presenciei passagens maravilhosas. Em São Paulo, faço minhas orações olhando para os edifícios que contornam o prédio onde resido. Aqui, em Vila Velha, tenho o prazer de rezar todos os dias mirando a imensidão azul do mar”. Shirley lembra que, independente da religião, todos, sem distinção de classe ou cor, deveriam dedicar momentos para expressar gratidão a Deus.

Seguindo em direção ao ponto mais alto do Convento, uma multidão parece sair de todos os lugares. Fiéis ajoelhados, pessoas chorando, outros contemplando a paisagem e, também, os interessados lendo informativos pendurados pelas paredes. Nenhum detalhe foge das lentes dos turistas: enquadra a Terceira Ponte, clica a cidade de Vila Velha, sobe em cima do corrimão para pegar o melhor ângulo do mar, pede aos estranhos que tirem uma foto, tudo para guardar uma lembrança da aventura. Pelos corredores do convento, o silêncio reina. O respeito e o amor pairam pelo ar, como se todos fossem movidos a uma única só certeza: a força da espiritualidade.

Guia turístico da esposa, Ademir Côrrea Filho, explica à mulher o significado dos pinturas, esculturas e salas do santuário. “O momento é adequado para fazer uma reflexão do dia e do ano que está apenas iniciando”. Morador de Cariacica, Ademir assegura que a distância não é obstáculo para frequentar o lugar. “Foram cerca de quarenta minutos para chegar aqui, mas valeu muito a pena o esforço. É um marco histórico para o Estado e ajuda compreender nossas raízes e, até mesmo, nosso futuro. O mundo está cada vez mais violento, o jeito, então, é buscar cada vez mais lugares como este, longe de tudo e de todos, da violência e das drogas”.

Nada de promessa nem de amor à religião. É o caso do carioca, também católico, Nilo Sérgio. “Aproveitei que estou hospedado em um hotel próximo e decidi subir até o convento para desfrutar um pouco mais das riquezas históricas que os capixabas detêm”. Acompanhado da namorada, ele diz impressionado com a beleza exuberante da fauna e flora que protegem o santuário. “Confesso que estou surpreso com tamanha estrutura. Tentei fazer um paralelo com o Cristo Redentor, lugar onde costumo ir sempre, porém percebi que foram construídas em tempos distintos e arquiteturas peculiares. A única coisa que se aproximam é o meio ambiente presente em cada uma delas e as praias que ajudam a compor este grandioso cenário”.

Uma hora, duas horas, três horas da tarde…o entardecer é inevitável. O canto dos pássaros não retumba até os ouvidos na mesma frequência das horas iniciais daquele dia – como tivessem trocado de partituras. Os raios, preguiçosos, já não refletem às tonalidades e o brilho aos olhos dos que estão ali. O que se vê é gente fazendo as últimas orações e dando adeus ao local. É hora de descer do santuário, ponto considerado para muitos religiosos próximo de Deus, e voltar à realidade. No terminal, encontros e despedidas daqueles que separaram o dia para curtir os balneários e fiéis que renovaram os votos de fé. >>> Fotos: Lais Santos e Odair José

Confira quem visitou o Convento da Penha ao longo do verão

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *