Carnaval Capixaba: festa dentro e fora do Sambão

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Congestionamentos se estendem ruas adentro, deixando moradores da região parados por minutos. Vendedores ambulantes surgem de todos os lados num burburinho confuso. Amantes do carnaval, desinibidos, cantarolam enredos das escolas numa euforia só. Existem aqueles que até arriscam um palpite para a grande a campeã do carnaval capixaba 2013 e os que ainda investem numa corrida sem limite em busca dos últimos bilhetes.

A poucos quilômetros do Sambão do Povo, num trecho do bairro Santo Antônio, região sul de Vitória, já era possível perceber a euforia dos foliões – empurra lá, pisa cá; afrouxa ali, aperta aqui; pula uma, duas, três calçadas. Um turbilhão de cheiros, sons e sentimentos. Dentro do carro, a alguns metros da entrada principal, a pulsação aumenta ao som do aquecimento da bateria que ecoa pelos morros, becos, avenidas e trechos próximos. Mais de perto, o ritmo dos instrumentos e as batidas aceleradas do coração seguem em perfeita harmonia, como se quisessem compor, ali mesmo, uma marchinha para o momento.

Enquanto pessoas de todas as partes se encantam do lado de fora, do lado de dentro, um tapete colorido toma conta da passarela do Sambão. Penas, papel crepom, lantejoulas, purpurina, latas, plásticos, luzes e o cheiro de cola quente que viaja pelo ar, desperta a atenção das arquibancadas e dos camarotes. Se não bastasse o brilho e a criatividade dos foliões que gingam na pista, carros alegóricos de oito metros puxam os olhares para cima, ganhando como papel de fundo o céu estrelado.

Sinal verde. Na pista, Unidos da Piedade, Imperatriz do Forte, Independente de Boa Vista, Mocidade Unida da Glória (MUG) e Unidos de Jucutuquara fazem o público delirar com as surpresas guardadas a sete chaves, construídas ao longo de um ano de trabalho e amor pelo carnaval.

Desapontada por não conseguir um bilhete de entrada, mas animada com a proporção do evento, Zilda Zelle analisa as dimensões que as festas populares vêm ganhando. “A cidade está cada vez melhor, me surpreendendo no quesito comemorações. O carnaval, ao meu ver, começou desde a queima de fogos, na praia de Jardim Camburi, e, agora, ganha uma cara nova com as fantasias”. Apesar de empolgada, ressalva que ainda é preciso acertar alguns detalhes para chegarmos aos pés de outros estados. “Estamos na direção certa. É engatinhado que iremos transformar em referência para o país todo”, aposta.

“Bonito, bonito e bonito…”. aprova o senhor Antônio Carlos Santana. “A estrutura montada, as escolas, as alegorias, as pessoas, as músicas… tudo está bonito”, mostra ele, acompanhado da esposa e dos amigos, todos prontos para aproveitar o carnaval do lado de fora do Sambão. “Eu moro há vinte anos em Vitória. Nunca tinha me interessado em participar nem ver o desfile. Mas hoje dá para entrar no clima com a família e os vizinhos, já que a segurança e toda a cidade entrou no ritmo”.

Gargalhadas e sorrisos não faltaram para Norma de Souza. “Estou adorando. Mesmo do lado de fora a gente se sente dentro do carnaval. Empolgação não falta aqui. Banheiros limpinhos, com papel higiênico e policias por todo lado garantem uma festa bonita de se ver”.

Cansaço é uma palavra que não faz parte do dicionário do carnavalesco de Felipe Negrelle. O estilo peculiar, típico do velho malandro carioca – camiseta listrada de azul e branco, calça branca, chapéu de lado e sapato próprios do samba – evidencia a disposição de Felipe. “Acabei de desfilar para Imperatriz do Forte, escola do coração, estamos aqui – aponta para os amigos – querendo mais. Agora, recuperando o fôlego para aguentarmos à noite inteira”. E quem será a campeã deste ano? “Tá difícil. Estão todas as escolas no mesmo nível, difícil arriscar”.

Seis horas da manhã de domingo, 03 de fevereiro. Fim dos desfiles do último dia de apresentação das 14 escolas de samba que encantaram na passarela do samba em três noites de muita animação. Mesmo assim, a animação continua nas arquibancadas, contaminadas pelo show de belas imagens e entorpecidas pelo som contagiante do samba. A essa hora da manhã, rainhas, passistas, carros alegóricos, ritmistas e, é claro, o baboleante samba no pé saem de cena para entrada da equipe de limpeza, que, apesar do lixo acumulado, não vê a hora de o sinal ser liberado novamente. Que soe o batuque para o próximo carnaval, porque o carnaval de 2013 já deixa saudade.

De gaiata no Sambão

Intencionalmente ou não, o melhor do carnaval de Vitória esteve na avenida no sábado, dia 8. Por isso, quem foi ao desfile, mas não conseguiu comprar ingressos antecipadamente, teve que dispor de pelo menos R$ 50 para comprar entradas nas mãos dos cambistas e sentar-se em uma das arquibancadas.

Eu era uma dessas. Não percebi a intensa valorização do carnaval capixaba, que este ano estava mais cheio de gente, mais divulgado e ainda mais lindo. Em 2012, consegui um ingresso por apenas R$ 15!

Estava num grupo de seis pessoas e não podíamos pagar muito mais que R$ 30 por um ingresso. Ou íamos pra casa ver o desfile pela TV, ou ficávamos no melhor posicionamento grátis da avenida: o fim do Sambão. Escolhemos a segunda opção, sem saber que estávamos em local privilegiadíssimo do carnaval. De lá, víamos arquibancadas, camarotes e, principalmente, as escolas, tão lindas, que vinham em nossa direção.

As impressões

O trio mais esperado, Boa Vista, Mocidade Unida da Glória e Unidos de Jucutuquara, estava pronto  para  pisar  no  Sambão  quando  cheguei  ao  meu  “camarote”.  Eu  estava especialmente animada pela possibilidade de rever a Boa Vista, que, em 2012 fez o público vibrar com o verso “Ser capixaba também é chique!”. Merecidamente campeã!

E ela veio linda! O samba-enredo falava da história do negro, com uma letra tão boa quanto a do ano passado; o prefeito de Cariacica, Juninho, empolgadíssimo na comissão de frente; e os carros alegóricos, ótimos. Uma pena que a mão do Nelson Mandela tenha quebrado no final… Tomara que não tenha machucado ninguém.

A MUG estava impecável! Alas cheias de gente, que cantavam o enredo cheio de palavras francesas e até um carro alegórico que exalava perfume, retratando a Belle Epoque. Grandes chances de vencer. E venceu!

A Unidos de Jucutuquara  fez uma bela homenagem à minha terra, Cachoeiro de Itapemirim! Não, não era bem isso, e sim, ao poeta Rubem Braga. Reproduziram a casa dele com exatidão em um dos carros alegóricos, complementando o espetáculo que a escola trouxe ao Sambão.

Não tenho dúvidas de que tive visão realmente privilegiada dos desfiles. Era ali no final que cada integrante botava pra fora a emoção de concluir bem um trabalho de um ano inteiro. Vi gente chorando, rindo e gritando “é campeã”.

 

Veja quem circulou pelo Sambão do Povo

 

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