Regional da Nair: de jovem pra jovem

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(Rafael Gonçalves)

“Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô, mas que calor, ô ô ô ô ô ô”. “Olha a cabeleira do zezé, será que ele é, será que ele é”. “Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar”. Lá de cima da ladeira, onde os primeiros pedregulhos realçam o caminho de acesso à Rua Sete, Centro de Vitória, uma multidão se arrasta ao som de um grupo de amigos. Eufóricos, dançando conforme o ritmo das marchinhas – ou até mesmo fora do compasso -, os foliões de rua não se acanham com o olhar de estranhamento dos que estão de fora do bloco. Envolvidos na magia do carnaval, jovens, crianças e a melhor idade esquecem dos problemas e soltam suas melhores fantasias.

Do alto dos prédios, moradores se atiram nas janelas para ver o grupo desfilar. Infectados com a sincronia das notas musicais, muitos até arriscam alguns remelexos tímidos atrás da sacada. Há aqueles que até colorem o céu azul com serpentinas e confetes, deixando o cabelo um emaranhado de recortes. Flutuando sobre os paralelepípedos que pavimentam o caminho, a multidão se espalha pelos diversos pontos, subindo nos bancos e carros estacionados, abordando desconhecidos com abraços e beijos.

“Encantador, muito contagiante…uma energia que une pessoas de distintas tribos numa só brincadeira”, suspira  Wanessa Lana Salvador. Nascida e criada em São Paulo, ela acredita que o bloco é uma forma de os músicos explorarem a identidade capixaba e consolidá-la mais a fundo na comunidade. “Adorei a iniciativa da banda de inserir canções do Espírito Santo em seu repertório, uma vez que sou de fora do Estado e procuro frequentar esses tipos de lugares para sentir o calor das pessoas daqui”.

“Tarde muito divertida no centro da Capital, palco mais de atrações culturais, voltadas, principalmente, para pessoas da nossa idade”, explica a baiana Bárbara Soares. O momento, para ela, é repleto de alegria, de novas amizades, sem dar trégua para confusão. “Nada de violência, nem de empurra-empurra, todos numa única onda a fim de curtir mesmo”. Bárbara gostaria que o centro tivesse mais eventos de mesmo porte, já que é um local que agrada a muitos  e combina com vários estilos e festividades.

A cada quarteirão deixado para trás, uma parada para recuperar o fôlego. Palhaços, marujos, borboletas, homens das cavernas, mágicos, bailarinas, bombeiros e mascarados…todos descem o morro ao som dos tambores e trompetes.  No corre-corre, comerciantes e ambulantes fazem da celebração um momento oportuno para vender refrescos e salgadinhos. Nos bares e lanchonetes, um entra e sai de gente. De repente, as velhas marchinhas dão espaço para hits populares, como funk e, até mesmo, sertanejo.

Por influência dos amigos e por ser bem próximo do seu gosto musical, Paula Tinti se deixa atrair pelo carnaval de rua de Vitória. “A agitação é muito boa e, a cada ano, vem melhorando mais. Dá para perceber que o pessoal envolvido é uma galera bonita, e os idealizadores estão surpreendendo o público dia após dia”. Paula lembra que é a segunda vez que participa do Regional da Nair e considera  a diversidade um ponto marcante do encontro. “Geralmente, cantamos músicas estouradas nas rádios, de grande sucesso. Toca funk e sertanejo, e todos acompanham sem preconceito.”

Com a experiência e a certeza de quem já pulou vários carnavais, Robson Silva aponta a vitalidade da atração. “O carnaval de bloco é sempre uma ótima opção para se divertir. Ver esse resgate da música brasileira, por meio dos blocos, é uma coisa muito importante para os dias de hoje. Já morei em Belo Horizonte e também no Rio de Janeiro, lugares que também investem nos blocos de rua, e posso dizer que é fundamental para que os mais novos conheçam o carnaval cantado em marchinhas, além de cultivar uma tradição”. Ele completa dizendo que o resgate traz um clima de paz e tranquilidade, coisa que poucos jovens conhecem nos tempos atuais, já que preferem boates e shows.

Ao chegar ao destino desejado, a Praça Costa Pereira, os protagonistas saem de cena e o espetáculo começa a ser comandado pelos que, até então, eram apenas desconhecidos. Uma algazarra bonita de se ver. Carros tentam circular pela região, porém o número de foliões é tão grande que, na maioria das vezes, a manobra torna-se mal sucedida. Procurado diariamente por acolher renomadas peças, o Theatro Carlos Gomes deixa de ser o foco das atenções e vira cenário da festança.

A noite chega e, com ela, a multidão começa a se dispersar, mas sempre com um cantarolado solto pela boca. Uns voltam para o ponto de partida, outros, animados, circulam pelos barzinhos da região, e há aqueles que, exaustos, decidem ir embora.  Grupos congestionam os pontos de ônibus. No coletivo, bancos e janelas viram tambores. Motorista e trocador entram no clima, e o transporte, para os que veem do lado de fora, parece comemoração de final de campeonato brasileiro de futebol. Ponto a ponto, um ou dois são deixados para trás, até que o último sobrevivente toma seu destino e a brincadeira chega ao seu fim. >>> Fotos: Flávia Marcarine Arruda e Daniel Gramacho

Confira quem circulou pelo Regional da Nair

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