Vitoria, a capital secreta do heavy metal

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(Leandro Reis)

Quem vê José Roberto de roupa comportada, compenetrado atrás de um computador, não imagina que o agora jornalista já foi um dos soldados do exército de camisas pretas que marchava – e bebia, bebia muito – pela Rua da Lama. Para os corpos jovens do século XXI, é difícil imaginar que a mais famosa rua boêmia de Vitória já foi um eixo de concentração de cabeludos com roupas e acessórios macabros. Mais complexo ainda – e embaraçoso para os fãs do estilo, agora filhos de pais estrangeiros – é constatar, nas linhas de “Rockrise”, que a capital respirou o heavy metal autoral durante a década de 80.

“Aconteceu um barulho, uma cena aqui. Ninguém está superdimensionando, este movimento aconteceu mesmo. Muita banda tocando, a imprensa cobrindo. Shows, festivais, bares que tocavam rock pesado”, pontua o jornalista e escritor José Roberto Santos Neves, autor de “Rockrise”. A obra, lançada em 19 de abril deste ano, é um livro-reportagem que narra a história do rock no Espírito Santo, com lente de aumento na geração dos anos 80. O recorte mais aprofundado dessa década não é por acaso: além de a Grande Vitória ter se configurado em cenário do heavy metal, José Roberto atuou como baterista em grupos representativos do Estado na época, como Skelter, Seven e uma participação no Thor, banda criadora da música que dá nome ao livro.

Em conversa com a revista Primeira Mão, José Roberto falou, entre outros assuntos, sobre a pesquisa para construir o livro, a importância do Rock in Rio de 1985 e os fatores que impediram o sucesso nacional das bandas capixabas. Ele analisou, também, o lugar que o rock ocupa atualmente, fazendo um paralelo com as décadas passadas. O que nos leva, de fato, àquela melancólica ciência de que as coisas podem ter sido melhores em outros tempos.

 

Quanto tempo levou para escrever o livro? 

 

Foram quatro anos de pesquisas e entrevistas para realizar essa obra. Eu já tinha a ideia há um tempo. Publiquei dois livros sobre música brasileira e faltava um trabalho sobre a cena capixaba. Imaginei que seria um livro sobre os anos 80, sobre a minha geração. Mas aí percebi que, para falar do rock dos anos 80, eu tinha que ir lá atrás e pegar quem desbravou a cena, a geração sessentista. E o projeto foi crescendo. Optei por fechar em quatro décadas porque vi que ia ter muito material.

 

Como foi escrever sobre um cenário de que você fez parte?

 

Foi mais difícil escrever o “Rockrise” do que os outros livros, justamente por causa desse meu envolvimento emocional com a história. Tive muito mais cuidado com a isenção. Eu não podia omitir as bandas que eu toquei só porque sou o autor do livro. Seria esconder informação. Mas eu tive o cuidado de não superdimensionar o papel delas. Isso é um exercício difícil. Acho que eu consegui esse distanciamento. O “Rockrise” é um livro de reportagem, não de memórias afetivas.

 

Pó de Anjo, Viúva Negra e Thor nasceram após os membros assistirem ao show do Kiss no Brasil, em 1983. Dois anos depois, veio o Rock in Rio, com domínio do heavy metal. Qual foi a importância desses acontecimentos para a construção de um cenário musical no Espírito Santo?

 

Isso gerou toda uma movimentação em Vitória, não só de formação de bandas, mas de espaços para essas bandas tocarem e de economia, pois o público comprava ingresso. Nessa época, as lojas de discos ainda eram muito procuradas. Vários bares também cediam espaço e aconteciam festivais com bandas capixabas de repertório autoral. Foi um período de muita efervescência. Era uma geração que estava com um grito preso na garganta, a geração da ditadura militar. O Rock in Rio coincidiu com isso. O rock foi a trilha sonora da democracia. Isso é indiscutível.

 

Se houve cobertura da imprensa, bandas talentosas e vários festivais de rock, por que esses músicos não ganharam projeção nacional?

 

A capital do heavy metal era Belo Horizonte, nessa época. Vitória ficava escondida. Foi uma efervescência que dialogou com o resto do país, mas não foi descoberta por vários fatores. Primeiro que as gravadoras não estavam aqui, e sim no eixo Rio-São Paulo. Segundo que a competitividade é muito grande; você tem uma banda boa aqui, mas 50 em São Paulo. Em terceiro lugar, é esse comodismo de as bandas terem segurança na cena daqui, serem conhecidas, terem foto no jornal. Ninguém quer o desconforto de dormir em hotel de quinta categoria, às vezes passar fome. O pessoal que tinha banda aqui era a maioria de classe média, estava fazendo faculdade e não queria se arriscar na música. Quem teve sucesso foi quem abdicou da estabilidade, daquele caminho natural de família e trabalho fixo. Faltou também uma articulação dos músicos, dos empresários e do poder público, que poderia ter levado essas bandas para fora do Estado.

 

É muito pessimismo dizer que o grunge foi o último movimento sincero, no que diz respeito a rock pesado? Digo isso no sentido de música como inconformismo, revolta, sarcasmo…

 

O grunge foi algo muito grandioso e terminou como uma decepção. A morte do Kurt Cobain foi traumática. Acho que o rock não conseguiu se recuperar disso, por mais que o Pearl Jam continue e o Soundgarden volte. Não houve renovação. Existem, claro, algumas bandas que tentaram alguma coisa. Eu não diria que o rock morreu, mas ele está domesticado pela indústria fonográfica. “Ah, mas a indústria não existe mais!”. Existe, sim. Ela ainda determina quem vai ser ouvido. Ela pode ter diminuído seu controle na distribuição de música, mas o seu poder continua. Quem ocupou esse papel de tocar na ferida foi o hip hop. Aquele rock que nos representa está vestindo calça colorida e faz um som insosso. Criou-se uma coisa do emocore, que é careta, conservadora, conformista. O rock sempre foi emotivo, mas existia uma contestação, um inconformismo. De uns anos para cá, ele perdeu a sua essência. Existem boas bandas, como Queens of the Stone Age, System of a Down. Mas se a gente precisa colocar bandas de 30, 40 anos pra atrair público, é porque tem alguma coisa errada.

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